APESAR DE TUDO, VOLTARÍAMOS A ESCOLHER
O QUE CALAMOS OS VETERINÁRIOS
Crônicas não autorizadas de um veterinário que sobreviveu aos tutores
Autor: Carlos A. Bastidas C.
Dedicatória
Para aqueles que alguma vez pensaram em desistir
e, mesmo assim, voltaram no dia seguinte.
Para aqueles que riram para não se quebrar
e ficaram quando teria sido mais fácil ir embora.
Este livro é para vocês.
À minha esposa e aos meus filhos, motor da minha vida.
Para Joe, Jonathan, Kimy, Vivi, Ali, Matheo, Paula, José
e para todos os meus amigos e colegas.
Prólogo
Antes de o telefone tocar
Antes que tudo comece, façamos uma pausa.
Antes do primeiro plantão.
Antes do primeiro “doutor, mas ontem ele estava bem”.
Antes do café frio, do sarcasmo aprendido
e das risadas que salvam.
Este livro não é para qualquer um.
É para quem já chegou em casa com cheiro de clínica na roupa
e cansaço na alma.
Para quem entendeu, cedo demais,
que amar esta profissão não a torna fácil.
Se você é veterinário, este livro não vai contar nada novo.
Vai lembrar.
Vai lembrar a primeira vez que alguém confiou em você.
A primeira vida que você salvou.
A primeira que não conseguiu salvar.
A primeira vez que duvidou…
e, mesmo assim, continuou.
Se você é estudante, este livro não tenta assustar.
Tenta ser honesto.
Porque ninguém nos contou tudo isso no começo.
E, ainda assim, aqui estamos.
Estas páginas falam de pacientes, sim.
Mas, sobretudo, falam de pessoas.
De nós.
Falam do humor que aparece quando o cansaço aperta.
Da ironia como mecanismo de defesa.
Das lágrimas que nem sempre se veem.
Das decisões que pesam mais do que deveriam.
Falam do que não está no plano de estudos.
Do que não aparece nas redes sociais.
Do que só se entende depois de viver.
Este não é um livro para glorificar a profissão
nem para reclamar dela.
É um livro para encará-la de frente.
Com tudo o que dói.
Com tudo o que vale.
Aqui você vai encontrar histórias que vão te fazer rir em voz alta…
e outras que vão te fazer fechar o livro por um segundo para respirar.
Você vai reconhecer frases.
Situações.
Pessoas.
Vai pensar: isso aconteceu comigo.
E está tudo bem.
Porque este livro não busca respostas.
Busca companhia.
Antes de começar, só mais uma coisa:
se em algum momento você sentir que estas páginas te refletem demais,
não é coincidência.
É porque este livro foi escrito para quem,
apesar de tudo, continua escolhendo ficar.
Para quem sabe que o telefone pode tocar a qualquer momento.
E, mesmo assim… não o desliga.
Bem-vindo.
Você está entre colegas.
Capítulo 1
“Doutor, mas ontem ele estava bem”
“Ontem” é uma unidade de tempo que não aparece em nenhum livro de fisiologia,
mas deveria.
Não tem horas, não tem minutos
e nunca coincide com o relógio da clínica.
“Ontem” é o curinga emocional do tutor.
A carta armadilha.
O curinga do drama.
Na veterinária, ontem pode ser esta manhã,
uma semana atrás
ou aquele momento mítico
em que o animal ainda era imortal.
Pantufla chegou carregada.
Os que estão bem nunca chegam carregados.
Veio enrolada numa mantinha que um dia foi branca
e agora tinha exatamente a cor do
“não sei o que aconteceu”.
Não andava.
Não reagia.
Não respirava como deveria respirar nenhum ser vivo
com planos de continuar existindo.
Pantufla estava mal.
Muito mal.
O tutor, não.
— Doutor… mas ontem ela estava bem.
Claro que estava.
Ontem comia… um pouquinho.
Ontem andava… devagar.
Ontem não vomitava… só tinha ânsias.
Ontem respirava… estranho, mas respirava.
Ontem estava bem.
Hoje está morrendo.
E nesse buraco negro temporal,
o veterinário se transforma magicamente
no responsável por o corpo não ter respeitado
o roteiro emocional do tutor.
Pantufla tinha uns nove anos — segundo o tutor —
embora seu organismo claramente já tivesse passado
por várias temporadas a mais.
Estava caquética, desidratada
e com uma massa abdominal tão evidente
que praticamente marcava consulta sozinha.
— Isso apareceu da noite para o dia, doutor.
A ultrassonografia negou com a cabeça.
O abdômen negou com a cabeça.
A biologia, simplesmente, riu.
Porque nada na medicina aparece “da noite para o dia”…
exceto os problemas quando já não podem mais ser ignorados.
É aí que você entende
que a medicina veterinária não luta contra doenças.
Luta contra o ontem.
E o ontem é invencível.
O ontem não sente culpa.
O ontem não toma decisões difíceis.
O ontem não escuta diagnósticos.
O ontem só diz:
— Antes estava bem.
Enquanto você coloca um acesso venoso
com a precisão de quem já fez isso mil vezes,
o tutor entra em modo interrogatório existencial:
— Mas não pode ser algo passageiro?
— Mas você acha que foi tão rápido assim?
— Mas ontem não estava bem?
Não.
Não estava.
Estava compensando.
Estava aguentando.
Estava sendo animal.
Porque eles fazem isso.
Não reclamam.
Não avisam.
Não dramatizam.
Seguem até não conseguirem mais.
E quando não conseguem mais,
chegam à clínica enrolados numa manta
que já viu coisas demais.
E ali está você.
Com o jaleco manchado,
o café frio de três horas atrás
e a missão impossível de explicar
que amor não basta para detectar a tempo.
Que não é culpa de ninguém…
mas também não é magia.
Pantufla não morreu porque “ontem estava bem”.
Morreu porque estava doente há muito tempo,
mas seu tutor achou que era “normal”
e o corpo fez o que pôde até se render.
Como eles sempre fazem.
Mas o veterinário fica no meio.
Sempre.
Entre o ontem idealizado e o hoje irreversível.
Entre a culpa do tutor e a realidade clínica.
Entre dizer a verdade
e não quebrar a pessoa à sua frente.
E, mesmo assim, seguimos.
Seguimos atendendo.
Seguimos explicando verdades duríssimas
com palavras suaves.
Seguimos sendo psicólogos,
tradutores emocionais
e médicos… tudo ao mesmo tempo
e pelo mesmo salário.
Porque alguém precisa estar ali
quando o ontem já não serve mais.
E, embora ninguém diga,
embora poucas vezes agradeçam,
há algo profundamente digno nesta profissão.
Algo que só entende
quem esteve ali,
sustentando o hoje
quando o ontem já acabou.
Ser veterinário é isso:
rir um pouco,
doer bastante
e voltar amanhã…
mesmo sabendo que
ontem sempre vai estar bem
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